sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Há realmente limites?


Esta semana, um dos «casos» no meio da comunicação social foi o facto de a editora Condé Nast, que publica títulos como Vanity Fair, Vogue, GQ ou The New Yorker, anunciar que os seus jornalistas vão passar a produzir conteúdos para os anunciantes.
E isto parece ter chocado muita gente, a ver pelas reacções que despoletou.
No entanto, e na realidade portuguesa que conheço, o que fazem determinadas revistas de imprensa especializada senão a chamada «publicidade encapuçada»? Ao falar de um hotel, de uma marca de moda, de uma marca de pneus ou até de rebuçados, não estão a fazer publicidade? E as publireportagens? Acham sinceramente que as editoras têm um departamento para fazer unicamente a reportagem para determinado cliente sobre a abertura de um espaço ou lançamento de um produto?
E se não quisermos falar em marcas ou serviços, o que dizer das notícias ou reportagens de entidades estatais como ministérios ou câmaras municipais.
Há realmente uma linha que separa de forma clara a publicidade e o jornalismo? Então vejamos: quando um jornal publica uma noticia que uma entidade governamental ou autarquia lhe envia sobre, por exemplo, a abertura de um concurso para um espaço, não está a fazer também publicidade?
Mas e se essa entidade colocar a mesmíssima informação noutro jornal e pagar por ela ou o outro jornal exigir o pagamento pela sua publicação.
Em que ficamos então?
O que é e o que não é publicidade?
É uma linha ténue que por vezes da qual nem sempre sabemos de que lado estamos.
Por outro lado, depois de a direcção de um jornal ficar a saber que a entidade pagou para publicação de uma informação que este colocou graciosamente, terá legitimidade para daí em diante exigir à tal entidade o pagamento por cada informação que publicar?
Tenho a noção que hoje lhe deixo mais interrogações do que informações. Mas este é também o «pão-nosso-de-cada-dia» dos jornais locais e regionais.
E colocando estas mesmas interrogações a si próprio, poderá compreender melhor determinadas tomadas de posição das direcções de muitos jornais.
É que o Sol quando nasce deve de ser para todos. E todos temos de comer todos os dias, apesar de alguns senhores acharem que só eles é que têm direito à comida no prato e o que os outros andam por cá a viver da luz do Sol.
Esta foi mais uma das minhas crónicas no Diário do Distrito, inspirada na reunião de câmara que teve lugar ontem no Seixal, sempre uma fonte de "inspiração" quinzenal...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

De Quem e Onde é a notícia?


E eis que entrámos em mais um ano, 2015. As esperanças renovam-se num mundo melhor.

Mas logo nos chegam imagens que "chocaram" o mundo.
Homens encapuzados entram numa revista e matam os seus trabalhadores. De seguida, mais pessoas são mortas num ataque a um supermercado. Tudo isto se passa em França.
A violência gera um movimento em massa, no mundo, nas redes sociais, no país. Milhares manifestam-se nas ruas.
Menos chocado ficou o mundo com a morte de perto de duas mil pessoas, número ainda não contabilizado, em Baza, na Nigéria.
Ficamos a saber da notícia quase e só no final de um noticiário, ou nas páginas de «Lá Fora» dos jornais.
Mesmo que as imagens que nos chegam sejam bem mais chocantes, o nosso coração estará mais perto de «Charlie»

Esta é uma regra do jornalismo: é mais importante e toca-nos mais aquilo que está mais perto de nós, quer fisicamente quer por afinidade.
Quem, ao passar os olhos por um jornal, não se deteve a ler uma notícia que fala da sua terra, da terra dos seus pais ou até numa localidade onde almoçou ou passou férias?
Chama-se a isto o princípio da proximidade.
Quanto mais próximo ocorrer um acontecimento, mais probabilidades tem de se tornar notícia. A proximidade pode ser uma escolha feita pela redacção ou pelos jornalistas, antes de editarem os jornais ou noticiários.
É por esse motivo que é muito mais visível nos meios de comunicação um atentado que ocorre num país da Europa, com alguns mortos, do que um atentado num país remoto de África.
Temos depois outro aspecto estudado nos manuais de jornalismo que também relativiza a notícia.
A proeminência das nações envolvidas nas notícias. Ou seja, quanto mais proeminentes forem as nações envolvidas num acontecimento internacional, mais probabilidades ele tem de se tornar notícia.
A França, país forte da Europa, tem uma relevância muito superior, em termos de noticia, que a Nigéria ou a Síria.
Não quer isto dizer que as notícias não sejam transmitidas. Mas quase de certeza não irão fazer primeiras páginas de jornais ou abrir um noticiário televisivo durante dias.
De seguida, existe outro factor que é ponderado no momento de transmitir a notícia ou de organizar o jornal. Trata-se do factor de proeminência social dos sujeitos envolvidos.
Quanto mais proeminentes forem as pessoas envolvidas num acontecimento, mais hipóteses este tem de se tornar notícia. Cartoonistas e trabalhadores de uma revista têm muito maior relevância social do que trabalhadores rurais.
Podem parecer cruéis estas minhas palavras, no entanto, basta pensar um pouco, olhar com olhos de ver as notícias que lhe chegam e não precisará de nenhum manual de jornalismo para comprovar o que aqui digo.

P.S. Mais uma das minhas crónicas no Diário do Distrito.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Afinal é Natal

Aproxima-se a época alta do ano, com as festas de Natal e de Ano Novo, no qual depositamos sempre grandes esperanças.
A par com a época de Verão, esta é quase uma silly season onde quase toda a gente atende os telefones a cantar «Noite Feliz» e os assuntos importantes são convenientemente deixados para «depois do Ano Novo».
Renovam-se os votos de felicidade, lembramo-nos dos amigos e conhecidos e agora até, com isto das redes sociais, é tão fácil espalhar em redor o espírito da época.
E este também se reflecte nas notícias. Seja no fecho do jornal da noite, com a imagem «congelada» em algum pormenor na árvore de Natal, sejam os temas mais solidários das reportagens, seja até a forma como se fazem as filhós tendidas no joelho da Beira Baixa (as minhas favoritas) ou a pinhoada alentejana (também a minha favorita).
Mas há um outro especto desta época. Se quase todas as semanas nos chegam via media relatos de catástrofes, de guerras, de mortes, quando as recebemos (ou transmitimos) nesta altura, parece que tomam um peso diferente.
Já por várias vezes ouvi pessoas a dizer «ah, já se esperava algo assim, afinal é Natal». Um dos exemplos disto foi o tsunami que atingiu a Tailândia em 2004.
Quando falamos em tsunami, decerto que é quase sempre este que nos vem à memória. Motivo? A data em que ocorreu, 26 de Dezembro, época das festas.
Claro que ocorreu outro terrível no Japão, e bem mais recente, em 2011. Mas recorda-se da data certa? Se calhar terá de ir ver à internet…
Mais distante no tempo foi o sismo da Terceira, em 1980. Data? 1 de Janeiro…
Não se trata, como é óbvio, de qualquer teoria de conspiração. É apenas a nossa racionalidade humana. Tal como nos toca mais uma tragédia que tenha ocorrido perto de onde vivemos, de onde nascemos ou de onde trabalhamos, também as notícias na época que se quer de alegria e paz, nos marcam mais profundamente.
E com votos que este ano não tenhamos notícias deste carácter para marcar o final de 2014, despeço-me desejando a todos os leitores do Diário do Distrito, e já agora, do Comércio do Seixal e Sesimbra, um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de esperança num futuro melhor.
Lembremo-nos que já passámos por muito pior e saímos vencedores.
Procuremos essa força dentro de cada um de nós para realmente fazer a diferença.
Feliz 2015!!!
 
P.S: Mais uma das minhas crónicas no Diário do Distrito, a última deste ano. E aproveito ainda para desejar, à minha maneira e do Belchior, umas Festas Felizes a quem visita este meu cantinho.
 
 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Amargos de boca



Já há algum tempo que não escrevia neste espaço sobre comida. Não que não seja um dos meus temas favoritos, mas com esta história da crise, limitei em muito as saídas gastronómicas.

No entanto, volta e meia, é preciso ir até um restaurante, local perfeito para uma reunião ou conversa. Foi o que aconteceu esta segunda-feira.
Confesso que até fiquei animada com a escolha, porque se tratava de um espaço novo, na Aldeia de Paio Pires, que bem precisa de restaurantes que atraiam pessoas. De fora um aspecto impecável, um menu atraente e com preços que pareciam em conta.
No interior, uma decoração sóbria mas bonita, e muita simpatia. À espera na mesa já estavam algumas entradas (um dia destes algum destes restaurantes vai ter problemas, porque segundo a lei, as mesmas colocadas em cima da mesa sem serem pedidas são consideradas como ofertas...).
Pedimos então o que pensávamos ser uma dose, tendo-nos sido explicado que no cardápio o preço era referente a 1/2 dose apenas. Ok, algo um pouco menos simpático, tendo em conta o tipo de informação prestada no exterior.
Avançámos então para uns «miminhos assados com bacon e migas de broa».
Primeiro que tudo, o nome do prato era maior do que a dose servida. Uns bocaditos de carne, embora bem temperados e grelhados, cobertos por duas fatias de bacon que nem sequer tinham sido apresentadas à chapa quente e que na sua extensão, cobriam completamente os tais «miminhos».
As migas, sem sequer terem levado um bocadito de poejo que lhes dá o gosto característico, eram de tudo menos de broa. Vinham sim muito bem enformadas.
Verduras ou algo semelhante, nem vê-las.
Ao lado, o terceiro comensal deste almoço, pedira umas iscas com batata frita.
Talvez por se tratar de um corte de carne mais barato, as ditas vinham servidas com maior abundância.
Foi muito triste constatar que, numa altura de crise profunda no sector da restauração, ainda há quem brinque com estas coisas. Sim, porque aquilo que ontem me foi servido mais não era do que uma brincadeira.
Sinceramente, fiquei extremamente desiludida. Não voltarei lá nem recomendarei, porque fiquei literalmente com um «amargo de boca»...

sábado, 8 de novembro de 2014

Princípios, meios e fins

A conjectura de crise em que Portugal está mergulhado leva a que a cada dia que passa encerrem empresas de todas as dimensões.
E as que vão resistindo enfrentam um autêntico muro de adversidades levantado por um Estado que devia ser o primeiro a incentivar a iniciativa privada, a verdadeira alavanca do desenvolvimento económico.
A comunicação social não é alheia a esta situação, e neste meio tanto soçobram os pequenos meios ao nível regional e local, como as grandes multinacionais.
Ainda esta semana foi feito o anúncio de que a revista GQ Portugal, editada pela Cofina, iria sair das bancas. Outras já foram descontinuadas e mais serão.
Falta de qualidade? Na maior parte dos casos, não. Apenas uma descida acentuada nas vendas de publicidade, principal meio de subsistência dos meios de comunicação social.
Vem isto a propósito do anúncio que um vereador fez ontem na reunião camarária do Seixal, onde informou que o outro título que é distribuído neste concelho está suspenso por tempo indeterminado.  
Em termos jornalísticos, isso traduz-se por uma perda para a população deste concelho, tendo em conta que por muito que tentemos, raramente um jornal local consegue abarcar todos os eventos locais, sobretudo num concelho com uma actividade cultural e desportiva como o Seixal.
A existência de mais do que um jornal local permite uma maior abrangência, que se traduz num leque muito mais alargado de informação para a população.
Frisei a questão jornalística porque se nesta lamento a suspensão do referido título (também por uma questão de respeito para com os jornalistas), já em termos concorrenciais no que respeita ao mercado publicitário não posso dizer o mesmo.
A concorrência quando é saudável e leal, faz-nos tentar fazer melhor e conseguir chegar mais longe. E, acima de tudo, há algo que nunca se pode desrespeitar: os anunciantes.
Infelizmente neste mercado há quem considere que essa é a única forma de conseguir, não sobreviver porque sendo inteligente saberá que isso é algo que ditará a sua morte a médio ou até a curto prazo, mas aniquilar os outros meios.
Não me vou alongar sobre este assunto, que já foquei aqui, apenas dizer que ninguém pode enganar todos durante todo o tempo.
Da minha parte, só posso olhar com tristeza esta “suspensão”, sobretudo porque sei dar o valor do que é lutar diariamente por trazer a público a melhor informação, dando o melhor de nós em nome de algo que se acredita.
Sobretudo quando dentro de dias o meu jornal irá completar sete anos de existência, de uma longa mas também muito frutuosa luta, de um longo caminho que, queremos acreditar, ainda vai no seu início.

P.S. - Mais uma crónica minha no Diário do Distrito.  

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Os tiranetes


No seguimento da minha crónica da passada semana, sobre o jornalismo e publicidade, vem a propósito o seguinte caso que me relataram.   
Um jornalista meu conhecido aqui no distrito de Setúbal, estando presente num evento, foi abordado por um edil que lhe EXIGIU a realização de uma peça sobre determinado assunto. Um assunto que “metia” questões políticas. 
Perante a recusa de acatar tal “ordem”, eis que das palavras se passaram às ameaças directas. Conhecendo o profissional em questão, tenho a certeza que o “valentão” terá levado que contar.  
No entanto, se este tipo de atitude espanta o leitor, tenho a dizer-lhe que embora não sejam frequentes, este tipo de atitudes é algo perante o qual qualquer jornalista, sobretudo os que trabalham ao nível do jornalismo regional, já se viu confrontado. 
Há quem não tenha o discernimento suficiente para separar algum tipo de familiaridade que se vai criando ao longo dos tempos e no decurso de muitas iniciativas onde se repetem as mesmas caras. Consideram que um cumprimento, um sorriso ou até alguma conversa mais informal durante o tempo que se espera o início de algo ou num intervalo de uma iniciativa, são suficiente incentivo para passarem a pôr e dispor do jornalista e do meio que este representa. 
É óbvio que existe algum tipo de simbiose entre jornalistas e representantes de entidades ou partidos políticos. São as tais «fontes» de que já falei. 
São a elas que recorremos para obter determinada informação, esclarecimento ou até o «furo noticioso». E é claro que muitas das vezes, quem presta essa informação, quer algo em troca.  
Claro que é também perfeitamente natural que os eleitos políticos enviem determinado tipo de informação para um órgão de comunicação social e esperem que o mesmo tenha o tratamento jornalístico apropriado e a respectiva divulgação. 
Ou que numa conversa, se lance um tópico que pode (ou não) vir a ser abordado jornalisticamente.  
O que não se espera nem se pode admitir, são as atitudes de ameaça perante os jornalistas e órgãos de comunicação que se recusam a tratar a notícia da tal forma publicitária como desejariam.  
Infelizmente, se por um lado o jornalista enfrenta na maior parte dos seus dias aqueles que tentam a todo o custo calar quem transmite à população assuntos que preferiram ver fechados a sete chaves, por outro tem de lidar com os tiranetes, que julgando-se acima de qualquer moralidade, se acham no direito de exigir aquilo a que nunca tiveram ou terão direito. 

sábado, 25 de outubro de 2014

Jornalismo ou publicidade


 
George Orwell dizia que «jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade».
Como é óbvio, dificilmente nos dias de hoje, um meio de comunicação social consegue manter as suas páginas ou o seu tempo de emissão, apenas com as tais reportagens que podem realmente vir a «beliscar» alguém.
É muito dispendioso manter equipas de reportagem apenas para o tal jornalismo de investigação, embora isso tenha sido algo que já fez parte das redacções de grandes títulos da imprensa nacional, mas que foi descartado devido à fome mercantilista.
É por isso que cada vez mais os chamados «fait-divers» saltam das últimas páginas para outras mais visíveis ou ocupam um espaço maior nos noticiários.
No entanto, por outro lado, tendo em conta todos os meios ao dispor de um jornalista actualmente, já não é necessário a uma redacção ter um piso inteiro com uma equipa de repórteres, aguardando expectantes junto da máquina de fax ou ao computador, prontos a sair para a rua e/ou a passarem horas atrás de um «furo».
O «jornalismo do cidadão» e a crescente consciência de cidadania e dos meios disponíveis para praticar essa cidadania, são muitas vezes tudo o que é preciso para um verdadeiro jornalista fazer o seu trabalho sem muito esforço.
E muito temos a agradecer ao fenómeno do século XXI, as redes sociais. Creio que já falei por aqui no papel positivo e negativo que estas apresentam na nossa sociedade, mas nunca é demais frisar que podem ser um perigo quando utilizadas por cobardes ou gente malformada. No entanto podem, e são-no na maioria das vezes, o meio mais directo e rápido para ajudar, para resolver situações, para alertar e para denunciar.
Vou dar um exemplo prático, muito recente e do qual se calhar a maioria das pessoas que lê estas linhas hoje, já se deram conta.
O aumento da quantidade de lixo nas ruas que tem vindo a ser sentida um pouco por todo o distrito. Como é óbvio, antes de ser jornalista, sou cidadã e munícipe e por isso também reparo nessa acumulação.
Mas também me chama a atenção os alertas nos grupos a que pertenço, dos amigos da minha área de residência, que denunciam sobretudo com fotografias.
A mim, enquanto jornalista, cabe-me então inquirir quem de direito sobre o assunto, sobretudo se os outros cidadãos não obtêm resposta através dos mesmos meios que usam para denunciar.
Essa é a notícia que alguns podem não querer que se publique, uma vez que não ficam tão bem na fotografia. Mas esse é o papel do jornalista.
O resto, a reportagem da inauguração, da conferência, do aniversário, não passam de publicidade, que embora necessária, é o único tipo de jornalismo com que alguns poderes instituídos conseguem conviver.
O jornalismo que não belisca, que não aprofunda, que apresenta tudo à luz cor-de-rosa de um universo perfeito, é acarinhado por esses poderes instituídos. O outro, o verdadeiro, o que investiva, que interroga, que não deixa cair no esquecimento, é visto com maus olhos, sendo imenso o esforço feito para o denegrir, mais não seja convencendo os fiéis seguidores dos poderes instituídos de que nem para esse meio devem olhar, ler ou ouvir.
Por isso, e por hoje, termino com mais uma frase de George Orwell «Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir».

P.S. - Mais uma das minhas crónicas para o Diário do Distrito.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Amnésias


Não sei se já falei nestas crónicas sobre a falta de memória. É que isto com a idade…
Mas a questão da memória, ou melhor, de certas amnésias, é um tema que tem vindo muito a lume recentemente na comunicação social.
E se há temas que toda a gente da comunicação social adora agarrar, explorar e esmiuçar até ao mais ínfimo pormenor, (por vezes até chamamos a essas notícias um «rebuçadinho»), são estas questões, e melhor ainda se for com alguém que nesse momento está no pico do desagrado do público.
Recordo um dos casos mais recentes, o da alegada falta de memória de Pedro Passos Coelho sobre os seus serviços à Tecnoforma.
Capas, paragonas, litros e litros de tinta sobre o assunto, informações mais ou menos secretas, testemunhos de colegas, e até ameaças por parte dos responsáveis da empresa sobre quem se pronunciasse acerca desta.
Para muita comunicação social isto foi mais do que um «rebuçadinho», foi um autêntico saco de caramelos, daqueles Logroño que antigamente se compravam nas excursões a Badajoz.
A falta de memória parece ser a melhor desculpa para muitas pessoas, sobretudo políticos. Lembram-se de Aníbal Cavaco Silva afirmar que não se recordava de como foi feita a permuta da sua casa no Algarve?
Ou de José Sócrates não se recordar do tema do seu trabalho final na Universidade Independente?
Ou de o antigo ministro da Educação, Roberto Carneiro, não se recordar se, enquanto exerceu funções entre 1987 e 1991, contratou algum grupo de trabalho remunerado com profissionais exteriores à Função Pública, no julgamento de Maria de Lurdes Rodrigues, antiga ministra da Educação?
E são essas recordações que a comunicação social se empenha em trazer à luz do dia. Em apontar e recordar a quem de direito que não estão a salvo das luzes inquisidoras da opinião pública e do rebuscamento de arquivos poeirentos por parte dos jornalistas.
São as recordações que muito agradam aos leitores e, sobretudo, à oposição política do visado.
Este problema de amnésia parece ser mais incisivo numa determinada classe da sociedade, a dos políticos. De presidentes a ministros, de deputados a autarcas, quase estaríamos tentados a falar em pandemia (outro tema agora na moda).
Além disso, é uma amnésia muito selectiva. Se não se recordam nomeações, empregos, remunerações, emails enviados ou promessas eleitorais (se bem que esse seja o esquecimento a que todos já estamos habituados), já se recordam muito bem quando algum assunto é focado publicamente que não seja do seu agrado.
É que se todos os políticos gostam de aparecer numa fotografia ou nuns segundos televisivos, a inaugurar um equipamento, a discursar sobre o bem que vai o país ou vice-versa, a falar mal do Governo que estiver na altura no Parlamento, já não gostam quando o tema lhes relembra o que gostariam de deixar bem arrumado no fundo da gaveta da memória.
E gostariam imenso de que a tal comunicação social se esquecesse, ou melhor, deixasse tudo isso cair no esquecimento…

 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O medo

Em crianças todos ouvimos falar do «papão», do «bicho-mau», que vinha buscar os meninos que se portavam mal ou não comiam a sopa.
O «papão» era o medo que nos incutiam desde pequenos e que em muitos casos ainda mantemos depois de adultos.
Vivemos com medos no nosso dia-a-dia. Medo da doença, do desemprego, de sermos atropelados, etc. E habituamo-nos a esses medos, por vezes até brincando, ou usando pequenos rituais para que as coisas corram bem, como sair de casa com o pé direito, ou fazer figas.
Mas o medo de que hoje falo é o que encaramos muitas vezes nesta profissão jornalística.
Não se trata do medo que advém de ameaças por, algumas vezes, colocarmos a nu aquilo que muitos gostariam de esconder.
É antes o medo que precisamos de ultrapassar para obter as declarações de uma testemunha ou o de levar uma determinada «fonte» a dar a cara pelo que diz.
São muitas as conversas em que ouvimos o «não ponha lá isso», «estou agora a falar em off» ou ainda o «não ponha na notícia o meu nome».
E até certo ponto, compreendemos esse medo, ou receio, como lhe queiram chamar.
No meu caso, recuso-me a publicar seja o que for se a pessoa que relata algo não der a cara.
Não posso ser eu, enquanto jornalista, a fazer o papel de «vingador» que essa pessoa pretende com as declarações que presta. Entendo que se quer tornar algo público, então deve assumir publicamente o que diz.
Apesar de tudo, até compreendo que muitas pessoas não queiram que a sua identidade se torne pública. Há situações extremas em que, ao falar-se de algo, se coloca demasiado em risco, muitas vezes para beneficiar outros que nem um agradecimento devolvem.
Mas, como jornalista do pós-25 de Abril, o que não consigo compreender, e sobretudo aceitar, é o medo abjecto de quem sabe que algo está mal, de quem pela sua posição na sociedade tem o dever de apontar o dedo e expor, mas que se recusa a fazê-lo porque simplesmente tem medo de perder um cargo, ou em português vernáculo, perder um «tacho».
São esses também os primeiros a criticar aqueles que sabem que vivem num país de liberdade, que querem realmente mudar as mentalidades e os poderes instituídos.
E tudo fazem para que as tais vozes, que para eles e para quem os sustenta são incómodas, se calem, porque normalmente são eles quem estão em cargos de gestão ou de direcção.
É que este tipo de pessoas interessa aos tais poderes, porque os sabem submissos, calados e obedientes. Não levantam ondas, não apontam o dedo, não erguem a voz para exigir aquilo a que eles, ou aqueles que supostamente representam, têm direito.
São semelhantes a toupeiras, mas menos dignos que estes animais, porque esses vivem abaixo do solo por ser esta a sua natureza, ao passo que estes de que falo o fazem porque não querem perder os tais privilégios. Nem que esse seja um simples título atrás do nome.
Quarenta anos depois da Revolução, ainda há quem não compreenda o que é viver em democracia.
O que é positivo, é que por cada uma dessas ‘toupeiras’ há sempre quem não tenha medo, quem aponte o dedo e erga a voz.
Porque afinal a Revolução dos Cravos não serviu apenas para alguns se exibirem em palcos e manifestações ostentando o «grito vermelho» à lapela.

P.S. - Mais uma das minhas crónicas semanais no Diário do Distrito. Quem quiser que enfie o carapuço.

sábado, 27 de setembro de 2014

«Não aceito insinuações»

Esta foi uma frase proferida por Joaquim dos Santos, presidente da Câmara Municipal do Seixal, à intervenção de uma munícipe na última reunião de Câmara.
Completamente de acordo.
Só é pena que este edil não siga aquilo que ele próprio defende.
Já aqui falei no passado nas insinuações que ouvia constantemente nas reuniões camarárias e assembleias municipais, as chamadas «indirectas» à comunicação social, quer nacional, quer local, que demoraram algum tempo a deixar de existir, mercê da sua referência em editoriais assinados por mim, ou nas reportagens que escrevi.
Durante algum tempo, pareceu ter terminado esse tipo de comportamento, que sinceramente não abona a favor de ninguém, mas as acções ficam com quem as pratica.
Com a chegada de um novo presidente da autarquia, quer no cargo quer em idade, pensei que este tipo de situação era coisa do passado, que uma nova forma de actuar e até de lidar com a comunicação social, iria finalmente acontecer.
Engano.
As «bocas» continuam. Desde o «já li coisas as coisas mais disparatadas, verdadeiras pérolas, na comunicação social», ao «tenho de falar com clareza para que a comunicação social não interprete mal o que digo», e até à tentativa de fazer passar por mentira aquilo que foi afirmado por escrito, tenho ouvido de tudo.
E para quem tiver dúvidas sobre estas afirmações do edil, relembro que, como gosta de dizer uma vereadora, tudo isto está gravado. Ou deveria estar.
E apenas afloro a quase total falta de apoio aos meios de comunicação social locais (no caso do meu jornal, sem qualquer inserção publicitária durante vários anos, totalmente direccionada para um certo folheto de campanha mascarado de jornal e já extinto, tal a sua qualidade).
Poder-se-ia afirmar que no caso do Seixal, a sua autarquia considere que não são necessários mais jornais, tendo em conta o dinheiro que a mesma gasta quinzenalmente no seu Boletim Municipal. Poder-se-ia, se esse Boletim realmente transmitisse o que acontece no concelho, o que não é o caso, como vários vereadores da oposição já o disseram, a ultima vez das quais precisamente na reunião que decorreu na quarta-feira, na qual um vereador da oposição fez ver a diferença entre o que o meu jornal reportou e aquilo que o boletim apresentou, sobre a reunião descentralizada anterior, onde foram literalmente omitidas todas as intervenções dos munícipes e dos vereadores da oposição, com destaque unicamente para os eleitos da maioria.
É triste assistir a isto em pleno séc. XXI e quando se celebram quarenta anos sobre o fim da ditadura negra que oprimiu Portugal.
Pior ainda, vindo de pessoas com cargos da máxima responsabilidade e oriundas de um partido que viu morrer e serem torturados tantos dos seus defensores, lutando por essa mesma liberdade de expressão e de imprensa.
Infelizmente na minha longa experiência como jornalista neste meu concelho, de que muito me orgulho, tenho ouvido isto demasiadas vezes. E pelo andar da carruagem, parece que vou continuar a ouvir.
Ou até que a paciência se me esgote.