terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Conversas…

No outro dia conversava com uma amiga sobre os desastres que já me aconteceram desde que o ano novo começou. Computadores avariados, a morte de uma gata, inundação na redacção, etc e muito tal.
Claro que contava-lhe tudo no meu tom de voz normal, ou seja, vários decibéis acima do tom de voz de uma pessoa normal.
Depois de me pedir para baixar o tom de voz, fazendo ela o mesmo, pediu-me para respirar. Simplesmente respirar. E sentir o ar entrar para os pulmões e o oxigénio fazer todo o seu circuito.
«Agora podes continuar», disse-me ela.
E continuei, mais calma, respirando, e até vendo alguma ironia em tudo o que se tinha passado.
Quando acabei, esta amiga disse-me: «já paras-te para pensar que se não te tem acontecido isso, podia ter-te acontecido algo pior?».
«O quê? Bater com o carro, morrer-me um familiar?»
«Não. Mas se o computador não te tem avariado, se calhar ficava estragado na inundação. E se a Mimi não tem morrido assim de repente, estaria em sofrimento e tu também.»
Confesso que sou uma fatalista e pessimista ferrenha.
Se algo me cai ao chão, é o Universo que se coloca contra mim.
Se perco as chaves de casa (pelo menos duas vezes ao dia) é a bruxa de serviço que me está a irritar. Aliás, a minha frase favorita quando tudo isto me acontece é «Não vale a pena!!!!!!!!!»
Mas estas palavras fizeram-me pensar. Vale a pena irritarmo-nos por coisas pequenas? Será que ao vermos o pequeno e o demasiado próximo, não conseguimos espaço para ver o maior e mais ao longe?
Confesso também que não sou dada a essas coisas de esoterismo, do «aconteceu porque tinha de ser», talvez porque se há algo que nunca fui, é conformista. Acredito que o destino somos nós que o fazemos, que o karma é um nome giro para um gato e que se queremos que algo aconteça, temos de ser nós a fazê-lo acontecer.
Gostaria de me conseguir entregar «nas asas do destino», mas não consigo. No entanto, apesar de não acreditar em coincidências, por vezes é tempo de parar e repensar um bocado sobre as nossas prioridades no que respeita a gastar as poucas energias que nos restam ao chegar aos quarenta anos.
Se não tivesse encontrado gente como uma certa Violante Assude há seis anos atrás, que fez com que fosse despedida da empresa onde trabalhava, estaria hoje a ser patroa de mim mesma e a fazer o jornalismo regional que adoro? Se não fosse parar a uma editora onde me usaram para fazer todas as revistas que editavam, teria a estaleca profissional que tenho hoje? Se não me tenho cruzado com certas pessoas e outras pessoazinhas, teria a visão que tenho da vida que tenho hoje?

sábado, 4 de janeiro de 2014

As Pálas

Primeiro que tudo, uma saudação a quem perde algum tempo para ler o que escrevo, desejando que 2014 traga saúde e felicidade, já que dinheiro será muito difícil.
Hoje escrevo sobre as pálas. Aquelas que muitas pessoas colocaram aos 12 ou 13 anos (outros um pouco mais tarde, consoante lhes deu mais jeito) e das quais não são capazes ou não querem livrar-se.
Se há algo que me irrita é isso. Nasci antes do 25 de Abril de 1974, e tive a sorte de ser «A Geração de Abril», os meninos que podiam ir para a escola sem bibe, que podiam pintar cravos e papoilas nos muros da escola, que podiam dizer a palavra liberdade sem medo.
Fui da juventude que podia ler o que quisesse, numa biblioteca recheada de livros. Que pôde ler sobre os horrores da PIDE e sobre a vitória de Humberto Delgado, porque o meu pai, simples pastor/cobrador/estivador conseguiu comprar esses livros.

Fui do sexo feminino que pôde decidir começar a trabalhar aos 17 anos, e desde aí nunca mais parar. Pude estudar na Universidade, no curso que quis.
Fui durante todos esses anos, educada numa família comunista. Numa família que se calava quando na televisão falava Álvaro Cunhal, figura que sempre respeitei. Numa família que seguia os resultados das eleições na sede do PCP da Torre da Marinha (local que alguns que hoje ostentam cravinhos vermelhos se calhar nem sabem que existiu).
Mas graças a um pai apenas com a 4ª classe e uma mãe que quase nem sabia assinar o seu nome, aprendi a pensar.
Aprendi a não ficar apenas pelo que ouvia, a indagar, a olhar o mundo com olhos de ver. Sem pálas.
Claro que essa visão se deve também ao muito que passei. Fui delegada sindical, defendi os direitos dos meus colegas, não em reuniões bacocas a debitar discursos políticos, mas no local, levando mesmo a uma paralisação numa secção da empresa onde trabalhava. A minha maior lição de vida. Porque se lutei por essas “colegas”, muitas delas são as que hoje passam por mim e fingem que não me viram. Mas tenho outras, que mesmo hoje varrendo as ruas, não deixam de me fazer uma enorme festa, que retribuo com a amizade que lhes devo.
Mas voltemos às pálas. Essas que alguns gostam de ostentar, e que lhes tira até o discernimento para uma discussão. As pálas que sempre me recusei a usar.
E por isso sou capaz de hoje, tanto defender como acusar. De agradecer e apontar o dedo. De aceitar e de recusar. E tenho um enorme orgulho disso a cada dia que passa.
Claro que não é fácil, num tipo de sociedade que só vive de rótulos, de cores políticas, de tendências, de gostos. Mas ser integro e vertical nunca foi fácil.
E nunca o será, enquanto a sociedade for composta na sua maioria por cordeiros.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Feliz Natal, Merry Christmas, Feliz Navidad, e afins...

E pronto, chegou outra vez aquela altura do ano em que atendemos o telefone a cantar o Jingle Bells, em que achamos que deviamos ter feito mais, falado mais, comprado mais (ahahahahahahahhah, pois sim!).
E também a altura do ano onde nos lembramos dos amigos com quem não falámos durante os últimos onze meses (graças aos deuses agora temos o facebook!!!).
A determinada altura, por questões profissionais, adorava esta época. Era a altura em que a todo o momento do dia tocava a campainha na redação para entregarem "aquela" lembrança da agência A ou X. Em que nunca sabiamos para quem era, mas que se alguém gostasse por exemplo de um prato da Paula Rego, era para ele que ia, ou uma bússola, ou até uma garrafa de Moet Chandon para abrirmos e celebrarmos todos.
Bons tempos.
Hoje, se recebemos um postal natalício via email, já é uma festa
Mas será esse o verdadeiro espírito do Natal? Ontem, o meu ex perguntava-me se eu sabia o que era o Natal.
Disse-lhe que não. Mas depois refiz o meu comentário.
Contara-me ele, nesse telefonema, que no domingo deparara com uma cadelinha podenga no meio da estrada, enfiada num saco de plástico preto, só com a cabeça e as patas da frente de fora. Passaram carros que se desviavam e ninguém parava. Ele parou. E recolheu essa cadelinha.
"Olha, agora estou a tratá-la, porque tinha o focinho ferido, e segue-me como uma sombra. Não suportei aquele olhar que ela me deitou de «ajuda-me!»."
Pois, amigo. Isso é o Natal. O podermos, com um gesto, mudar a vida. A nossa e a de quem ajudamos. Seja de duas ou de quatro patas.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Porque é mesmo assim

Palavras para quê?


sábado, 9 de novembro de 2013

Do Avesso e do Direito

Do Avesso e do Direito – O Relacionamento entre o cliente e as operadoras de telemóveis
Pedro Proença aborda as questões contratuais e casos concretos de dificuldade de relacionamento entre cliente e fornecedor de serviços de comunicações móveis.

Ora bem, para quem não teve oportunidade de ver a transmissão do programa «Do Avesso e do Direito» no canal Televisão Lisboa, onde esteve presente aqui a «amiga», aqui fica o link.
Pese embora a vaidade de ter estado num estúdio televisivo (sim, embora seja jornalista, nunca tinha feito nada semelhante), o importante deste programa é terem em atenção a relação e as fraudes que as empresas de telecomunicações fazem.
E escusam de pensar que a ANACOM faz alguma coisa, porque esse verbo de encher, além de levar meses para dar uma resposta, limita-se a dizer para irmos a tribunal ou a Julgado de Paz.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

De Margaridas e de Cravos...


Vim agora a este meu cantinho e até fiquei chocada comigo mesma... mais de um mês se colocar aqui as minhas ideias, opiniões e sugestões, que valem o que valem.
Pois é, um mezinho e picos, onde se não faltou temas para debastar, faltou o tempo. Um tempo repartido entre o jornal, o ginásio, o cão e os gatos... e até uma entrevista no programa «Do Avesso e do Direito» na Televisão Lisboa (quem não viu ontem, poderá em breve ver o video).
Como dizia, um mezito onde não faltaram temas.
Sobretudo vindos "de cima", dos tais senhores que se arrastam penosamente todos os dias nas cadeiras da Assembleia da República (excepto às sextas-feiras) e que se desunham para tornar este jardim à beira mar plantado, um bocadito melhor para todos os que por aqui pululam... basta ver a preocupação que tiveram uns técnicos, durante sete, repito, sete anos, para surgirem gloriosamente com um projecto-lei-ameaça-plano para os animais... infelizmente, e digam lá se estes indivíduos não são mesmo uns mártires dignos da nossa mais extensa pena, tanto trabalho para depois a senhora ministra Cristas dizer que «não gastou um minuto do seu tempo a olhar para aquilo».
Ora abóbora!!!! Então... então andaram os «homes» a trabalhar sete anos arduamente para nada?!?!!?
Depois, entrementes, veio o ministro da Educação, Nuno Crato a dizer que «os portugueses de teriam de trabalhar mais de um ano sem comer para pagar a dívida»...
Completamente de acordo!! Isto porque os portugueses já pouco comem, porque não têm dinheiro. E como o exemplo tem de vir de cima, então será a altura perfeita para fecharem os restaurantes da Assembleia da República e do presidente da República, primeiro-ministro e vice-primeiro ministro, bem como a restante CIA, começarem a deixar de comer.
Acho que iriam achar um exercício muito interessante...
E agora, mais recentemente, vem uma... "senhora escritora" (acho que ela se auto-apelida assim), a dizer que, enfim, está triste pelos protestos dos portugueses, acha que os mesmos (dos quais, como "senhora" que é, não faz parte), têm falta de inteligência, e por isso mesmo sente repulsa deles...
Sinceramente, com gentinha desta, não vale a pena gastar o meu latim. Já outros o fizeram e melhor do que eu.
Como o Bruno Nogueira. Com quem concordo em absoluto.
Mas o que esta "senhora" disse publicamente, é o pensamento de alguns Dons e Donas deste paízinho... os Dons e Donas que ainda se podem sentar e comer carne e peixe a todas as refeições. Que não se preocupam com o início, meio ou fim do mês. Que podem passear-se nos seus carrinhos de alta cilindrada enquanto não vão passar os fins-de-semana ao estrangeiro.
Os tais que não fazem parte dos "Portugueses". Os Dons e Donas a quem repugnam ainda os "Portugueses" que acreditaram num Abril de Cravos. Num Abril Novo.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Comentários


Uma pessoa amiga alertou-me para o facto de ter colocado um comentário num texto meu e eu não o ter publicado. Devo dizer que não vejo o dito comentário em lado nenhum nesta coisa do Blogger.
Se por acaso alguém colocou comentários e não os viu publicados, as minhas desculpas. Enviem para mariadocarmo.torres@gmail.com.
Estas coisas das novas tecnologias...

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Eleições e abstenções



Passou-se mais uma eleição e outra vez, seja pela chuva, seja porque as pessoas estão completamente fartas da política e dos que supostamente a representam, o grande vencedor foi a abstenção.
Como aliás o tem sido nos últimos anos.
Temos alternativas? Sim, e isso foi também demonstrado pelos resultados obtidos pelos movimentos de cidadãos independentes. É costume dizer-se que o voto deve ser para a pessoa e não para o partido.
Mas isso é apenas conversa porque ninguém vota apenas na pessoa. Vota num ideal que essa pessoa, na maior parte dos casos, encabeça. Se calhar, a única votação onde realmente a escolha é feita pela pessoa, será nas Juntas de Freguesia, mercê da proximidade que o político aí tem com a população.
Ou seja, se eu for amiga de um candidato, mas a sua ideologia política for contra a minha, é óbvio que não voto nele (pese embora que se não me quiser chatear, ou procurar um tacho, se calhar até lhe digo que votei).
Se calhar, estou a precipitar-me com estas declarações, porque afinal, as pessoas votam nas pessoas. Até nas que não podem concorrer porque estão presas, mas que apresentam quem as represente legalmente. Creio que será caso único no mundo, mas nestas coisas do desenrasca, o português ainda bate aos pontos.
Mas há mais partidos do que os já muito batidos, e isso também se reflectiu nestas eleições, porque partidos como o PAN, que sem os meios que os outros têm e a máquina eleitoralista bem paga, conseguiu obter relativos bons resultados.
Prova que é possível votar numa ideologia diferente.
E depois há os que acham que, de quatro em quatro anos, bastam umas festinhas nas costas e uns apertos de mão e conquistaram o eleitorado.
Ou os que acham que com meia dúzia de truques de magia, ostentando duas caras tipo feijão-frade, conseguem sair bem de uma fotografia muito borrada.
E depois chegam os resultados. E as desculpas ou as canções de vitória, que curiosamente são feitas quer percam ou ganhem, porque para os políticos, o copo está sempre meio cheio, e décimas ganhas são conquistas alexandrinas.
Mas mesmo assim há os calimeros, os que culpam os partidos, as escolhas, a chuva e este ano até a comunicação social.
O problema é que muita gente lambe malaguetas pensando que são rebuçados e depois queima a língua.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Quem vê caras não vê corações

Hoje foi um dia um bocado estranho, em que vi o melhor e o pior das pessoas.

Ao fazer a entrega do jornal, fui abordada por um senhor cigano, fiquei logo desconfiada, mas ele muito atrapalhado lá me foi dizendo se eu lhe podia dar uma boleia até à bomba de gasolina mais próxima porque tinha ficado sem combustível.

Claro que o levei, e como isso me acontece com frequência, estou preparada com "equipamento pesado", voltámos e lá pôs a gasolina no carro.
Ao chegarmos à bomba, onde pagou três euros de gasolina, ainda me disse se eu queria meter um ou dois euros no meu carro, o que recusei.

"Que Deus a abençôe!!!!", foi repetindo e a esposa, já com o carro em andamento. Ainda me disse o nome, onde morava e se eu precisasse de alguma coisa "ou de uma roupinha para pagar quando pudesse", para ir ter com ele.

Cerca de uma hora depois, no Barreiro, um individuo de idade, bem apessoado, dirigiu-se a mim e pediu-me para lhe comprar uma dose de comida.

Como ali não havia nenhum restaurante, disse-lhe que só lhe podia dar algum dinheiro.
Insistia que uma dose custava 4 euros e eu lhe podia dar 5 euros.
Disse-lhe que não, que só lhe dava 2 euros, que era o que tinha. Agarrou no dinheiro e virando costas disse: "O que é que eu faço com 2 euros?".
Claro que foi acompanhado por umas frases menos simpáticas da minha parte...

Realmente, quem vê caras não vê corações...

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Acordar Abril


As férias passadas, a praia já quase como uma recordação, é altura para voltar ao tempo real.
É altura para olharmos para o que nos rodeia e à porcaria que nos estão a fazer. Sem fazer mais comentários sobre o desgoverno e a falta de democracia que enfrentamos, deixo aqui um texto que hoje transcrevia para a nossa rúbrica «Crónicas de Guerra», e que nos lembra a importância de voltar a fazer um 25 de Abril.
«2 horas da tarde. Estou no quarto a escrever estas linhas. De entre as cartas recebidas sobressai a carta da Lucília, escrita propositadamente para me descrever os últimos acontecimentos e cuja primeira página era isto: «Caro Amigo Marquês. Não podia nem queira deixar passar nem mais um dia sem te dizer os meus cordiais parabéns por nesta altura de vitória e liberdade que o país atravessa, envergares uma farda verde.
Farda essa que foi símbolo da morte e da discórdia, é hoje finalmente o símbolo da vitória, da liberdade e do fim do fascismo.
Os bravos soldados portugueses que viram a sua farda desacreditada e que aliás tinham vergonha de a envergar, hoje mostram-na vaidosos e vitoriosos.
Lamento, Marquês, não poderes viver connosco na metrópole estas horas de alegria e liberdade, ainda hoje me parece tudo isto um sonho e estou convencida que a grande maioria das pessoas está ainda com medo de despertar e encontrar uma realidade já passada.
Como me dá prazer sair à rua e, no Rossio, onde era hábito encontrar-se os polícias quando o povo pretendia fazer uma manifestação, encontrar agora dois ou três carros de assalto, dois «jeeps» da tropa e uma infinidade de tropas de farda verde ou azul, ornamentada com um cravo vermelho.
No cano das suas armas, (instrumento que muitos odiaram), encontra-se igualmente um cravo vermelho, como que a dizer-nos que aquele foi o instrumento que nos restitui a Primavera.
Custa realmente acreditar que tudo isto não seja um sonho.»
Infelizmente foi mesmo um sonho. Um sonho que por culpa de todos nós, nestes anos de "democracia", deixámos destruir. Agora procuramos novamente os «soldados de farda verde ou azul, com cravos vermelhos nos canos das armas», mas estes já não existem.
Esfumaram-se como tudo o que acontece nos sonhos.