quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Quando o nosso melhor parece não chegar

Quando escolhi a minha profissão de jornalista, sabia que certos dias seriam mais difíceis que outros, quer pela sobrecarga que alguns têm, quer ainda por certos assuntos e eventos nos tocam no mais fundo do nosso ser.
Há ainda aquelas situações em que a ‘notícia’ nos fica demasiado próxima, como também já me aconteceu. Um acidente em que conhecemos a vítima ou um chão que abate num prédio da nossa rua e em que os técnicos têm de esperar para prestar declarações enquanto despimos a farda de jornalista e ajudamos a acalmar uma das vizinhas que conhecemos desde sempre.
Mas esta é também uma profissão onde nunca deixamos de nos surpreender.
Em quase duas décadas de jornalismo (tantos que já posso renovar automaticamente a minha carteira profissional) estou neste momento com uma reportagem como nunca me surgiu na vida.
Embora o tema não seja novo, a imigração, desta feita sinto sobre os meus ombros um peso acrescido.
É que as pessoas a quem entrevistei colocam quase todas as suas esperanças de resolver a sua situação, naquilo que vou escrever e nas respostas que posso vir a obter. Além disso, esta foi uma situação que me tocou particularmente.
Não apenas por se tratar do caso de pais que estão separados dos seus filhos de tenra idade, como também pela situação que as duas crianças vivem no Paquistão e que me foi relatada pelos pais.
É tão diferente lermos ou ouvirmos que morreram 73 pessoas, 29 delas crianças, em Março deste ano, na distante Lahore, ou que em Quetta, morreram 3 pessoas e 27 ficaram feridas, 2 delas crianças.
É lá longe, num país que nem conheço, com uma cultura que não é a minha. Mas ouvir essas mesmas histórias na primeira pessoa, por quem está afastado dos filhos e sofre por saber que eles estão sujeitos a este tipo de violência, torna toda a nossa percepção da realidade completamente diferente.
E é impossível separar a jornalista da mulher que quer abraçar a outra mulher que chora à sua frente.
É impossível conseguir a frieza suficiente para não se dizer a um pai que esconde as lágrimas que não se irá fazer tudo o que é humanamente possível para ajudar.
E é impossível não nos sentirmos impotentes quando esbarramos nos silêncios institucionais, na barreira do «não há pessoal suficiente», no muro do «têm de esperar que o processo decorra».
Quando ouvimos um «por favor, ajude-nos a trazer os nossos meninos para a segurança», o que pudemos responder?
Apenas um ‘vou fazer o meu melhor’…

http://diariododistrito.pt/index.php/news/6130/126/Mama-baba-porque-nao-podemos-ir-ter-convosco-Mama-baba-why-can-t-we-come-to-you

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