sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A verdade da mentira - II


Em Maio deste ano, escrevi para estas linhas virtuais um texto intitulado «A mentira e a ‘perna curta’», onde falava de certos malabaristas que usam a mentira para se manterem à tona e irem enganando algumas pessoas.
Falava também dos outros malabaristas, aqueles que todos os dias vão dizendo que não se aumentam impostos, que o desemprego desce, que não perdemos nenhuns dos direitos alcançados com uma revolução.
Hoje, quatro meses passados, venho falar de outro tipo de mentiras, com as quais nós, os jornalistas, nos deparamos muitas vezes.
E não falo daquelas que são feitas em plena campanha eleitoral, onde se prometem os mundos e os fundos que não se têm e que nunca existirão, mas os quais vão sendo inaugurados como se de obra feita se tratasse.
Falo daqueles que, aos dias de hoje, me obrigam a andar sempre com um aparelhozito de gravação de voz, e a recusar qualquer entrevista, mesmo aquela que à primeira vista parece inócua, sem que o mesmo esteja ligado.
Recordo-me sempre de uma colega de profissão despedida porque aceitou fazer uma entrevista a alguém que naquele dia estava com azia e disse cobras e lagartos dos elementos da instituição que representava, e quando viu as suas palavras ‘preto-no-branco’ no papel de um jornal, deu o dito por não dito. Provas? Nenhumas.
Já me deparei com alguns desses, a quem até tive depois oportunidade de enviar o registo sonoro do que disseram.
Compreende-se que, no calor de uma conversa, por vezes sobre assuntos polémicos e que mudam a vida de pessoas, se digam certas coisas. Mas o entrevistado terá de ter a seriedade de dizer ao jornalista o agora já famoso: «olhe lá que isto é ‘off-the-record’» e cabe-nos a nós profissionais compreender isso e não usar o que ouvimos.
Por muito que nos custe aquele perder esse furo, em Portugal considero que ainda há honradez neste campo.
Longe vão os tempos dos títulos bombásticos de «Independentes», obtidos com conversas ouvidas na mesa ao lado do restaurante, sem que os comensais e conversadores se apercebessem sequer que ao lado estava um “jornalista”…
Da minha parte sempre respeitei todos os entrevistados.
E da mesma forma, exijo respeito para com a minha profissão.
Nunca admitirei que me chamem mentirosa ou ao meio que represento, sobretudo se até em vez de um registo sonoro, tenho um email enviado por quem de direito, apontando para uma determinada data um certo acontecimento.
Todos somos humanos, todos podemos falhar. Quer em recordar algo como um email enviado, quer em cumprir as promessas feitas não apenas em época eleitoral como dirigidas por várias vezes à população.
O que não é digno de um eleito político é tentar fazer passar a comunicação social por mentirosos para ocultar erros e faltas.
Embora a comunicação social até tenha as costas largas, podendo receber por vezes, sem direito a responder, todas e mais algumas acusações (um pouco como o Governo, quando não interessa dar a cara pelas faltas), não é por isso que temos de aceitar todas as acusações, vindas elas de quem venham.
Uma mentira repetida muitas vezes e em público, não se torna verdade nem altera a realidade.
Por muito que se tente.

Nota: mais uma vez, este é o texto da minha crónica no Diário do Distrito.
Nessa não referi o caso específico que me levou a escrever estas linhas, mas faço-o aqui neste meu cantinho.
A origem deste texto tem a ver com a postura do presidente da Câmara Municipal do Seixal, Joaquim dos Santos, na reunião camarária de 11 de Setembro, na qual lançou várias indirectas à comunicação social, dando a entender que tinha de falar muito claramente para evitar que os jornais inventassem mentiras sobre datas de supostas inaugurações ou de obras a realizar.
E no momento mais quente da noite, quando interrogado porque é que as obras do Estádio do Bravo, acordadas no protocolo com o SLBenfica, ainda não tinham arrancado, eis que o máximo representante da autarquia do Seixal responde com um: «Eu nunca disse que as obras arrancavam em Setembro». Ali na hora confrontei-o com o facto de me ter até enviado um email, mas ao seu estilo fez de conta que não me ouvia, continuando o seu discurso.
Ora acontece que em Junho deste ano, ao meu jornal foi enviado um email onde era dito, em nome da Câmara Municipal do Seixal, que as ditas obras começavam em Setembro. Ali, preto no branco.
Realmente ninguém assinou o email, e o mesmo foi enviado pelo Gabinete de Imprensa.
Virá agora o presidente da Câmara Municipal dizer que nada teve a ver com o assunto?
Então quem terá dado o aval para o dito email ter seguido? E se era falso, porque é que a mesma pessoa não solicitou um desmentido ao jornal após a publicação da notícia em Junho?
Demasiadas interrogações num processo com cerca de catorze anos, e muito pouca transparência.

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